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tempestiva nº 32
hay cosas que el dinero no resuelve, todo lo contrario
Felicidade ordinária
Gostaria poder agregar algum comentário oportuno quando personas que estão a meu lado, estão falando sobre futebol, enquanto esperam a seus filhos que podem ser coleguinhas dos meus, na porta da escola. Dizer por exemplo: sim, acredito que foi penalti mais o jogador exagerou e tal… Ou quando me perguntam de que time sou, responder outra coisa que não seja: de nenhum. Isso parece gozação, mais é a pura verdade.
Gostaria poder desejar ter um carro de determinada marca porque saberia por exemplo seu desempenho, potencia do motor, qualidades do espacio interno, relação custo benefício, etc. Isso também daria uma boa conversa. Por exemplo, poderia destacar algum conhecimento sobre mecânica e sua implicância com a segurança do carro, assim como defender o design do farol, esse de aquele outro modelo que acharia desproporcionado com respeito ao tamanho da grade frontal. Conheço pessoas que podem ficar horas falando sobre carros, comparando uns aos outros, e eu do lado, quem sabe ocasionalmente, fazendo uma pergunta tonta, ficando ai sem agregar nada, até virar as costas para ir embora a tomar ar fresco, ficando eu como um verdadeiro antipático e anti-social.
Gostaria ter a habilidade de poder colocar com orgulho um adesivo na traseira de meu carro incentivando o uso, ou mostrando simpatia por uma tal marca de computador, com um tal sistema operativo, que em fervorosas discussões defenderia argumentando por exemplo na implicância filosófica de tal escolha.
Gostaria poder experimentar em carne própria aquele olhar fascinado que vejo por exemplo em pessoas na sala de espera do dentista quando na tv aparecem atores de novelas ou de reality shows fazendo coisas incomuns como competir nalguma prova de habilidade como a de achar uma determinada chave dentre um número x que abra algum cofre…
Gostaria também de ir ao cinema a assistir os filmes super promocionados na mídia, aqueles que logo seus atores e diretores, que evidentemente saberia seus nomes, serão premiados com Oscar. Gostaria que realmente quem ganhasse o Oscar de melhor ator me importasse, e que saber tal coisa fizera alguma diferença na minha vida. Seria bárbaro!
Outro dia no patio da escola falando sobre o trânsito com o pai de uma coleguinha da minha filha, comentei para ele algo assim como: “… o carro hoje em dia passou a ser uma vestimenta!” Coisa que me pareceu bastante original. Já havia ouvido falar sobre o carro como extensão do corpo, mas nunca como vestimenta. No momento pensei em completar a ideia agregando que o conceito de vestimenta teria alguma afinidade com o de excesso na vestimenta barroca, mas ao perceber a cara de estranhamento do outro, não falei mais nada.
Penso que gostando realmente de essas coisas que gostaria gostar tal vez a vida seria mais fácil. Seria, por exemplo, mas fácil fazer amigos, compartir gostos e preferências. Ajudaria por exemplo a ter um objetivo mais claro, definido, colocar-se metas, para ganhar tanto dinheiro e assim poupar tanto para em determinado tempo comprar tal carro ou mudar-se a tal bairro, etc. Coisas que o mercado oferece e que com um simples atrito de um cartão magnético numa máquina registradora a gente pode conseguir e nos proporcionar uma felicidade que pode-se ver nas publicidades de tais coisas e que logo pode ser ver imitada mas de uma forma mais real, amplificada, nas ruas da cidade.
S/T

Para mim, que sou um esférico corpúsculo laranja descomposto, é muito difícil deixar de assistir televisão.Se bem acredito que não fico muito tempo como estatua de granito na frente daquele aparato de raios catódicos que fica num canto da minha sala de estar y de comer ocasionalmente, esse ”pouco” tempo, que na maioria das vezes ou numa altíssima porcentagem do mesmo, é um tempo inerte-sado-inutil, já que o próprio sistema nervoso fica também petrificado, repentinamente, como num piscar aquático, ocorrem pensamentos clarificantes nos que você, por exemplo pode achar que o mundo está-se fazendo para bilhões de sujeitos que, sem nenhum esforço para ajustar, encaixariam-se na descrição que acabo de realizar sobre essa sensação de inércia sofasística. Sujeitos os mesmos que não achariam nada estranho, ou até ficariam algo esperançados ao ver, colocando também como mero exemplo, ao vice-presidente dos Estados Unidos de América como negociador da paz entre os palestinos e os judeus. Digo eu, no seria melhor enviar ao chefe de estado ou ao segundo ministro de Canadá?
Deve ser que eu gosto do absurdo. A televisão é dadaísta. Isso me prende. Só devo de ter cuidado de não ultrapassar a frágil linha que separa a animália do reino mineral.
Mundo Perfeito

Deveriam se fazer mais carros. Deveríamos comprar mais carros. Entapetar as ruas, os mangues, os desertos, florestas, os sete mares com essas maravilhas da natureza humana. Porque os carros nos amam e eles são bonitos, brilhantes, luxuosos, formidáveis. Dá para a gente ser bem original e adaptar eles segundo nosso estilo específico. Dá para colocar um som bem potente que reflita nossa capacidade e refinamento auditivo. Dá para a gente combinar aros, espessura e altura de pneu e uma gama infinita de acessórios. Fico muito feliz quando, por exemplo, vejo alguém que troca às rodas que vem de fábrica por rodas mais brilhantes, com mais transparência e por sobre todas as coisas, mais leves. Porque a vida tem de ser leve, como a vida sobre um carro com um bom estofado e principalmente bem aclimatado. Porque de nada serve um carro se você não pode criar nele um micro-clima perfeito que por momentos nos faça a vida extremamente confortável. Assim o mundo texturado de carros será um lugar extraordinário, fora do comum, mais feliz, mais autenticamente verdadeiro. E as pessoas, nesse mundo que finalmente achou sua vocação, ficaram mais bonitas, elegantes, mais refinadas, importantes, realizadas. Porque não tem nada mais lindo, por exemplo, ver um pé feminino, devidamente calçado, aparecer lentamente, por entre a porta e a galharda carcaça de um carro. E não é exatamente que o pé apareça lentamente. Trata-se de um processo de camaralentização de nosso olhar. Artifício necessário para a justa apreciação de tal acontecimento. De fato também posso afirmar que não existe no mundo situação mais excitante que se encontrar frente a frente, carro a carro numa disputa de espaço viário com uma mulher com o cinto de segurança passando por entre seus brilhantes seios substancialmente evidenciados por tal corte. Ai meu deus! Que maravilha! Porque o carro é uma materialização do próprio Deus. Já que Deus criou ao mundo para nele se formar um caldo primigénio de onde a altas temperaturas a vida foi tomando pequeníssimas formas até evoluir ao que hoje somos. E o homem criou o carro para no carro encontrar a Deus. E isso todo o justifica; a extinção dos dinossauros, o afastamento das galáxias na expansão do universo, as cruzadas, os happenins, raves, o franquismo, bushsismo, imperialismo, comunismo, niilismo y todo tipo de ismos e movimentos aparentemente, e nem tanto, adversários da paz como, por exemplo, a cristianização do oriente, maio de ’68 ou o aquecimento global.
