
Deveriam se fazer mais carros. Deveríamos comprar mais carros. Entapetar as ruas, os mangues, os desertos, florestas, os sete mares com essas maravilhas da natureza humana. Porque os carros nos amam e eles são bonitos, brilhantes, luxuosos, formidáveis. Dá para a gente ser bem original e adaptar eles segundo nosso estilo específico. Dá para colocar um som bem potente que reflita nossa capacidade e refinamento auditivo. Dá para a gente combinar aros, espessura e altura de pneu e uma gama infinita de acessórios. Fico muito feliz quando, por exemplo, vejo alguém que troca às rodas que vem de fábrica por rodas mais brilhantes, com mais transparência e por sobre todas as coisas, mais leves. Porque a vida tem de ser leve, como a vida sobre um carro com um bom estofado e principalmente bem aclimatado. Porque de nada serve um carro se você não pode criar nele um micro-clima perfeito que por momentos nos faça a vida extremamente confortável. Assim o mundo texturado de carros será um lugar extraordinário, fora do comum, mais feliz, mais autenticamente verdadeiro. E as pessoas, nesse mundo que finalmente achou sua vocação, ficaram mais bonitas, elegantes, mais refinadas, importantes, realizadas. Porque não tem nada mais lindo, por exemplo, ver um pé feminino, devidamente calçado, aparecer lentamente, por entre a porta e a galharda carcaça de um carro. E não é exatamente que o pé apareça lentamente. Trata-se de um processo de camaralentização de nosso olhar. Artifício necessário para a justa apreciação de tal acontecimento. De fato também posso afirmar que não existe no mundo situação mais excitante que se encontrar frente a frente, carro a carro numa disputa de espaço viário com uma mulher com o cinto de segurança passando por entre seus brilhantes seios substancialmente evidenciados por tal corte. Ai meu deus! Que maravilha! Porque o carro é uma materialização do próprio Deus. Já que Deus criou ao mundo para nele se formar um caldo primigénio de onde a altas temperaturas a vida foi tomando pequeníssimas formas até evoluir ao que hoje somos. E o homem criou o carro para no carro encontrar a Deus. E isso todo o justifica; a extinção dos dinossauros, o afastamento das galáxias na expansão do universo, as cruzadas, os happenins, raves, o franquismo, bushsismo, imperialismo, comunismo, niilismo y todo tipo de ismos e movimentos aparentemente, e nem tanto, adversários da paz como, por exemplo, a cristianização do oriente, maio de ’68 ou o aquecimento global.
One Comment
Dieguito,
Ótimo texto!
Bem-vindo à casa!!
abs,
leila