Gostaria poder agregar algum comentário oportuno quando personas que estão a meu lado, estão falando sobre futebol, enquanto esperam a seus filhos que podem ser coleguinhas dos meus, na porta da escola. Dizer por exemplo: sim, acredito que foi penalti mais o jogador exagerou e tal… Ou quando me perguntam de que time sou, responder outra coisa que não seja: de nenhum. Isso parece gozação, mais é a pura verdade.
Gostaria poder desejar ter um carro de determinada marca porque saberia por exemplo seu desempenho, potencia do motor, qualidades do espacio interno, relação custo benefício, etc. Isso também daria uma boa conversa. Por exemplo, poderia destacar algum conhecimento sobre mecânica e sua implicância com a segurança do carro, assim como defender o design do farol, esse de aquele outro modelo que acharia desproporcionado com respeito ao tamanho da grade frontal. Conheço pessoas que podem ficar horas falando sobre carros, comparando uns aos outros, e eu do lado, quem sabe ocasionalmente, fazendo uma pergunta tonta, ficando ai sem agregar nada, até virar as costas para ir embora a tomar ar fresco, ficando eu como um verdadeiro antipático e anti-social.
Gostaria ter a habilidade de poder colocar com orgulho um adesivo na traseira de meu carro incentivando o uso, ou mostrando simpatia por uma tal marca de computador, com um tal sistema operativo, que em fervorosas discussões defenderia argumentando por exemplo na implicância filosófica de tal escolha.
Gostaria poder experimentar em carne própria aquele olhar fascinado que vejo por exemplo em pessoas na sala de espera do dentista quando na tv aparecem atores de novelas ou de reality shows fazendo coisas incomuns como competir nalguma prova de habilidade como a de achar uma determinada chave dentre um número x que abra algum cofre…
Gostaria também de ir ao cinema a assistir os filmes super promocionados na mídia, aqueles que logo seus atores e diretores, que evidentemente saberia seus nomes, serão premiados com Oscar. Gostaria que realmente quem ganhasse o Oscar de melhor ator me importasse, e que saber tal coisa fizera alguma diferença na minha vida. Seria bárbaro!
Outro dia no patio da escola falando sobre o trânsito com o pai de uma coleguinha da minha filha, comentei para ele algo assim como: “… o carro hoje em dia passou a ser uma vestimenta!” Coisa que me pareceu bastante original. Já havia ouvido falar sobre o carro como extensão do corpo, mas nunca como vestimenta. No momento pensei em completar a ideia agregando que o conceito de vestimenta teria alguma afinidade com o de excesso na vestimenta barroca, mas ao perceber a cara de estranhamento do outro, não falei mais nada.
Penso que gostando realmente de essas coisas que gostaria gostar tal vez a vida seria mais fácil. Seria, por exemplo, mas fácil fazer amigos, compartir gostos e preferências. Ajudaria por exemplo a ter um objetivo mais claro, definido, colocar-se metas, para ganhar tanto dinheiro e assim poupar tanto para em determinado tempo comprar tal carro ou mudar-se a tal bairro, etc. Coisas que o mercado oferece e que com um simples atrito de um cartão magnético numa máquina registradora a gente pode conseguir e nos proporcionar uma felicidade que pode-se ver nas publicidades de tais coisas e que logo pode ser ver imitada mas de uma forma mais real, amplificada, nas ruas da cidade.